Modos de Viver (ou A Filosofia dos Pangarés)
Nacionalidade, etnia, idade, gênero, classe social. Dentre as formas de separar e entender seres humanos acho que a única que ainda não foi devidamente explorada é a divisão entre pessoas que colocam a mão na massa e pessoas que pensam sobre a mão e a massa.
A interação entre essas duas espécies permeia toda a história da humanidade e talvez seja a única divisão real entre nós.
Minha tendência incontrolável de afundar em abstrações sobre significados e propósitos encontra o equilíbrio perfeito com a postura dos maravilhosos seres práticos que me cercam. Enquanto aconselho, sensibilizada: “olhe para o que você está sentindo e pensando”, eles me alertam de longe: “se você não continuar pedalando, vai cair!”. E seguem em alta velocidade na ciclovia.
Apostar corrida pode ser empolgante, mas acho que, no fundo, sigo a Filosofia dos Pangarés. Animais pouco apreciados que, de repente, param de galopar para saborear umas plantinhas no canto da estrada. Foi mal, mas alguém tem que prestigiar o banquete de sensações à nossa volta...
Seja por assombro ou encantamento, algumas pessoas se demoram nas coisas.
Ainda bem que não é todo mundo. Se não, o mundo estava perdido. Andaríamos em círculos no meio da rua, intercalando êxtase e angústia, como um cão que tenta alcançar o próprio rabo. Diversidade é uma benção.
Semana passada estava conversando sobre trabalho com uma amiga. No meio de uma mensagem, ela escreveu: “como você disse, isso não faz ‘sentido’ para mim”. De início dei risada, porque não entendi o motivo de “sentido” estar entre aspas. Mas logo entrei em digressões sobre como sentido deveria sempre vir entre aspas, porque é algo que a gente inventa. Com cada pessoa criando seu próprio sentido das coisas e assistindo ele mudar com o tempo, a palavra merece mesmo se vestir da falta de crédito das aspas simples. Divaguei sozinha.
Com certeza ela não quis dizer isso tudo quando escreveu a frase, mas acho que, como toda pessoa prática, já sabe, intuitivamente. Enquanto fiquei encaixando as pecinhas das palavras, ela, já longe, seguiu pedalando.
E isso não é dizer que um jeito é melhor que o outro. O que seria da filosofia e da literatura sem essas duas formas de ser na vida? A celebração da diversidade humana devia colocar esse complemento entre pizzaiolos e críticos gastronômicos em destaque.
Afinal, algumas pessoas são artistas e outras são arte. Resta descobrir qual é qual.