Delírios Ansiosos

Eu, que nunca gostei de matemática, me vejo agora buscando uma solução única para uma equação muito complexa e, admito, inexistente.

Diante de minha ansiedade, desfilam os inúmeros resultados de todos os caminhos que imagino possíveis a partir daqui.

Isto é, quando a quarentena acabar. Se a humanidade ainda existir.


Estive pensando em voltar para a academia. Não a dos pesos, da lycra de gosto duvidoso e dos suores compartilhados, com essa terminei faz tempo – nossas diferenças eram irreconciliáveis. Já me aceitei andarilha solitária, praticante intermitente de yoga e amante sazonal de aulas de dança.

Estava pensando na outra, a academia da torre de marfim e dos livros que dão rinite. Em Fevereiro, nós decidimos dar um tempo. Não precisou de muito para eu começar a esquecer as partes ruins de nosso relacionamento abusivo – me prendeu em casa por anos e exigia atenção exclusiva. Apesar de tudo, confesso: voltei a flertar com o doutorado. Minha sanidade, no entanto, me lembra que acabo de sair do isolamento social exigido por uma dissertação e que, com o fim iminente do mundo, mal desfrutei de minha vida de recém-emancipada.

Então, mergulho em delírios de libertação. Já fui para a Índia e voltei com toda a sabedoria de Gandhi, morei numa fazenda orgânica e aprendi todos os segredos da vida nômade. Nessa exploração de possibilidades, já escrevi um livro, dois filmes e uma série – na minha cabeça.

Enquanto isso, na vida real, entre textos e traduções, tenho aprendido a fazer Mojitos e me reapaixonado por médicos ficcionais, (bem-vindo de volta, Mcdreamy).

Nessa brincadeira de imaginar futuros possíveis, pareço até esquecida de que a vida interrompe planos como um cowboy entrando num bar. E, também, que ela vai acontecendo assim, nos intervalos entre a pipoca e o brigadeiro, quase sem querer.

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