O Que Somos e O Que Queremos Ser
Esse fim de semana caí em um buraco negro do Youtube. Queria outra (mais uma) solução para a famigerada “pele mista”, e acabei entrando na realidade paralela das rotinas de skincare. Não me entendam mal, eu já conhecia esse universo, mas ele mudou muito desde a minha última visita.
Além de pensar em quanto tempo perdi sem usar hidratante, fiquei chocada com a pele de mulheres de 40 anos que pareciam ter 13, embasbacada com a quantidade de produtos que pessoas passam no rosto antes mesmo de tomar café e bem preocupada de ver gente falando de componentes químicos como se fossem sabores de sorvete. Isso tudo é, no mínimo, muito estranho.
E, aqui, eu poderia discorrer sobre como a indústria farmacêutica cria falsas necessidades estéticas para nos fazer comprar cremes e sobre como investimentos deveriam ter sido mais direcionados para a solução de outros problemas, como para a produção de vacinas contra ameaças conhecidas há tempos, por exemplo, uma pandemia global. Eu também poderia falar sobre o bom e velho medo de envelhecer, ou, então, sobre como o tempo que se gasta com esses cuidados na manutenção da beleza faz parte de uma estratégia ardilosa de controle, especificamente sobre as mulheres, como nos ensina Naomi Wolf em “O Mito da Beleza”.
Afinal, diferentemente do que nos fazem pensar, a “beleza” não é um tópico superficial. Quando pensamos em “cuidados com a pele” podemos pensar em outras inúmeras questões, como: o elitismo na promoção de tratamentos e cremes caríssimos como única maneira de atingir a “pele ideal”; o provável racismo sob o sucesso de produtos coreanos clareadores e, enfim, o vínculo entre peles manchadas, desregulamento hormonal e crise climática – pensando especificamente em águas poluídas e no consumo de animais empanturrados de antibióticos.
Só que o que eu realmente fico me perguntando é: o quanto a busca por uma “pele uniforme” se relaciona com a nossa (vã) necessidade de controle e o quanto não vem de um real senso estético de harmonia?
Afinal, não temos como negar, é muito mais agradável conversar com alguém que não tem um furúnculo no rosto. E, também, sabemos que basta aparecer uma protuberância estranha na pele que já começamos a cutucar. Certo que isso talvez se deva, em parte, à nossa curiosidade símia, mas tenho a impressão de que nosso interesse por peles macias e lisas vem da mesma raiz que nossa necessidade de asfaltar terra, do impulso de criar “ordem”.
Nossa pele é a fronteira entre nós e o mundo e é por meio dos nossos corpos que expressamos quem somos. Qualquer mudança física, como fazer tatuagem, colocar piercing, platinar ou cortar radicalmente os cabelos, nos dá um senso de controle imediato. Sentimos que temos poder de mudar algo concretamente, geramos um efeito instantâneo sobre como somos percebidos e como nos percebemos. Mas o que acontece quando não há olhos para ver a revolução que, muitas vezes, se tenta instaurar de fora para dentro? Ou quando não se tem acesso aos meios que se fizeram tão essenciais para uma autoestima sedimentada sob bases tão frágeis?
Tenho visto, nas redes sociais, comentários de mulheres tristes por não poderem pintar o cabelo ou fazer as unhas e confesso que tive que superar meu julgamento inicial para entender por que isso era uma questão. Afinal, parece tão descabido quanto reclamar de tédio em meio a uma pandemia. Só que, assim como o tédio, o problema esconde coisas mais significativas ao fundo. Tem relação com identidade, com o que há de mais íntimo em nós, com as coisas que não vemos ou que não queremos ver: exige que nos olhemos com sinceridade.
A ruptura com hábitos, construídos ao longo de anos, profundamente enraizados na noção de si, gera um confronto entre o que somos e o que queremos ser, ou, o que pensamos que devemos ser.
Acho que neste tempo de silêncio, ao repensarmos as estruturas de ordem, imaginando outros futuros possíveis, também estamos abrindo espaço para reaprendermos a nos relacionar com nossos próprios corpos. Afinal, tratamos o corpo com a mesma violência que tratamos a natureza - cercando, podando e abatendo.
Somos todos maravilhosamente diferentes: como as árvores, cada uma contorcida à sua maneira. Talvez agora finalmente veremos mais beleza na confusão úmida da floresta que na simetria meticulosa dos parques.