Abracem suas Mães

“Eu quero a minha mãe”, pensei, olhando para a cesta de tomates no mercado cheio de pânico de contágio, mas vazio de gente. Por um momento, em dúvida se devia comprar ou não, virei a criancinha que acorda de um pesadelo no meio da noite e pede socorro.

Fiquei me perguntando quantas vezes a gente não continua pedindo esse socorro internamente ao longo dos anos. E como é triste que elas, as mães, não possam surgir irrompendo pelas portas mundo afora quando nos sobem esses nós na garganta – quebra-molas da vida.

Hoje é o aniversário da minha mãe e íamos nos encontrar. O plano era ter emendado com a comemoração de Páscoa, mas o ano não quis.

Minha mãe querida, eternamente encenando uma etapa do purgatório de Dante: arrumando uma bagunça que ninguém sabe de onde vem, nem para onde vai. Sempre colecionando paradoxos; se perdendo entre abas da Amazon e do Pinterest, bem no meio das contas do imposto de renda; perdendo o fio da história, justo no clímax, e falando que eu acumulo muito papel, enquanto 32 pastas cheias de folhas descansam em sua mesa de jantar neste exato momento. Minha personagem favorita.

Graças a minha mãe, aprendi a ler o rosto das pessoas com a maestria de arqueólogo fluente em hieróglifos, caçando vestígios de qual personalidade estaria falando.

E não subestimem a importância desse talento quando o ser humano em questão vai de Dona Hermínia a Miranda Priestly em segundos.

Na praia, ela cavava buracos gigantes e construía os maiores castelos. Enquanto, eu, como boa menina ciumenta, ficava indignada com todas as crianças que surgiam querendo brincar com aquela mãe, que era só minha, e, vá lá, um pouco dos meus irmãos.

Dentre as coisas aleatórias que vieram de carona em suas malas de viagem, temos um chapéu Russo, uma zarabatana de bambu e uma katana de plástico - ela não chegou ao ponto de trazer armas exóticas de verdade, apesar de sua adoração inexplicável por facas de cozinha.

Mãe, queria muito poder comemorar seu aniversário contigo, estirada numa praia e com um presente bizarro à altura de sua galeria de extravagâncias, mas já que nosso encontro foi adiado, preencho esse espaço azul entre continentes com as minhas palavras.

Aos que têm sorte, abracem a mãe de vocês, se puderem.

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