Ensinamentos de uma Vítima Muda
Eu e a minha irmã somos assassinas de plantas.
Concordamos que não tem coisa mais linda que uma casa cheia de vasos e verdes vistosos, mas não temos o dedo verde. Acho que elas até se estremecem um pouco quando passamos por perto das banquinhas de rua e cuidadosamente escolhemos nossa próxima vítima. Eu queria ser a pessoa iluminada que, no momento zen antes de dormir, rega e conversa com todas as suas amigas do reino vegetal, mas sou distraída e esquecida demais. Estou trabalhando nisso.
Por muito tempo estive resignada a ter somente cactos e pequenas suculentas, plantas que, como gatos, praticamente tomam conta de si mesmas, mas mesmo essas já consegui matar. A última, esqueci na janela e uma tempestade arremessou o vaso, espalhando terra para todos os lados. Ressuscitei a bichinha, mas ela nunca mais confiou em mim. Ficava me olhando de soslaio, julgando minha agro-incompetência.
Fora acidentes imprevistos como esse, eu achava que só tinham dois jeitos de matar plantas: por afogamento e por desidratação. E meu método de tortura sempre foi essa intercalação – tentando compensar erros. Só que recentemente descobri uma gama de problemas inexplicáveis que surgem quando se atravessa a marca de seis meses. Temos em casa uma refém que está resistindo bravamente aos nossos esforços de homicídio culposo.
Apesar de nossa negligência e imperícia, ela persevera. Essa força da vida, a doce resistência das flores que nascem no asfalto, sempre me impressiona.
A natureza nos mostra em silêncio a sutil potência que descansa em todas as coisas.
Quando crescer quero ser como a Cornélia, nossa Camedórea-elegante, que, contra o terror de morar com a gente, se veste de um verde triunfal.